Depoimento [bolsista - MORGAN HIROSUKE MIKI]
Minha experiência de estudos no Japão comecou antes da minha partida do
Brasil. No início do meu último ano na faculdade, comecei a pensar no
que seria de mim após a conclusão do curso. Como queria conhecer novos
mundos, resolvi que iria continuar os estudos em outro país, e o escolhido
foi o Japão.
Logo no início, descobri que teria que pensar no tema a ser desenvolvido
no meu futuro trabalho, assim como encontrar um professor
orientador especializado nesse tema. Durante dias contatei várias pessoas, professores e
pesquisadores para que aconselhassem este inexperiente aluno a chegar ao Japão.
A primeira fase foi basicamente de contatos locais, com pessoas de vários departamentos da Poli,
e a partir de um determinado momento, passei a contatar diretamente o meu futuro
professor orientador. Assim, tive que me virar para aprender a escrever num
inglês formal, tarefa que nunca tinha feito antes. Além disso, após a aprovação
na entrevista, foi necessário traduzir a proposta do projeto de
pesquisa para o japonês ou inglês. Eu optei pelo japonês, e para isso contei
com a ajuda de um engenheiro nativo, recém chegado ao Brasil para o
seu curso de mestrado. Dessa forma, consegui atender a todos os requisitos para
receber a bolsa. Toda essa experiência foi importante, pois percebi que não
conseguimos nada sozinhos, a ajuda de outras pessoas é imprescindível.
Antes de chegar ao Japão, descobri que teria que prestar os exames para o
ingresso ao mestrado. Tomei conhecimento das matérias, e passei a revisar o
conteúdo programático antes de embarcar. Normalmente, pode-se optar em prestar o
exame de admissão em inglês ou japonês, mas ao chegar em minha nova universidade, descobri
que a única opção no meu departamento era o japonês. Encarei isso como uma grande
oportunidade para melhorar meu japonês, e devo relembrar que o meu japonês
na época era equivalente o de um adolecente japonês de 10 ou 12 anos, pois havia
aprendido a língua no convívio familiar, e o aprendizado tinha sido reduzido por ocasião
de meu ingresso na escola brasileira. Assim, elaborei meu plano, não só para o
exame, mas também para o futuro convívio no Japão. Passei os primeiros
5 meses assistindo aulas elacionadas às matérias do exame, memorizando termos técnicos,
revisando as matérias em japonês, e realizando seminários juntamente com outros japoneses.
Essa última parte foi um trampolim para a melhoria de minha comunicação em língua
japonesa, pois passei a conversar com os estudantes nativos diariamente, e
a preparar materiais em japonês para os seminários. E finalmente, consegui a
minha aprovação para o curso de mestrado.
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Morgan e Mituhiro (bolsistas de 1996) |
Quanto à vida no Japão, durante os primeiros anos não passava pela minha
cabeça o que significavam realmente as diferenças culturais. Assim, fui tendo as pequenas
surpresas no dia-a-dia, pois apesar de estar em um novo ambiente, ainda não
estava totalmente adaptado às normas do padrão local. Havia algumas coisas que considerava
um tanto diferente ou até mesmo absurdas, mas não me importava com seus motivos e orígens.
Por outro lado, acabava simplesmente classificando alguns costumes como
características inerentes dos japoneses, quando na verdade eram características
bem semelhantes ao de outras culturas. Essas conclusões, muitas vezes tendenciosas,
decorriam do fato de ser mais fácil de ver o que está à nossa frente do que perceber
algo relacionado a isso dentro de nós. Um exemplo relevante dessa diferença é o grau de
formalidade de uma língua. Tanto a cultura brasileira como a japonesa apresentam
formalidades e informalidades, mas com certa variação de grau. No Japão ela é mais
aparente, significando que essa forma de uso é bem diferente da encontrada no Brasil. É algo que não pode ser traduzido por dicionários, nem ser lecionado em poucas aulas.
Porém, existe uma tendência dos estrangeiros em pensar que a formalidade da língua
japonesa pode ser aprendida em poucas horas de aula, pensando que ela deva ser
equivalente ao de sua cultura. Isto pode constituir uma fonte de mal entendidos
na comunicação de estrangeiros e japoneses. Com o tempo, comecei a entender os
motivos e as orígens dos costumes, como também passei a identificar melhor as
semelhancas com outras culturas. Dessa forma, após alguns anos, passei a ter
a noção das implicações das diferenças culturais. A vantagem de ter conhecimento
de duas culturas distintas é a abertura de visão do mundo, além de um melhor
rendimento na pesquisa em decorrência de um bom convívio social com os colegas
do laboratório. Não vou me auto-avaliar quanto ao meu atual nível entendimento
da cultura japonesa, pois isso depende muito mais da qualidade da vida social
com os habitantes locais, do que com o tempo de permanência no país. Por isso,
não basta apenas estar fisicamente no país, é preciso desenvolver a capacidade
objetiva de aprendizado da nova cultura.
Voltando à universidade, após a fase de preparação para o ingresso ao mestrado,
não tive grandes problemas com as matérias do curso. Quanto à pesquisa, desenvolvi
vários temas no decorrer do tempo. A escolha do tema da pesquisa tem grande
influência no destino. Assim como há temas que podem gerar
resultados a curto prazo, há temas que levam anos para serem
concluídos, e infelizmente, até mesmo aqueles insolúveis. No caso do meu
laboratóro, uma pesquisa demorava em média dois anos para ser concluída. Uma
das maiores mudanças ocorreu no começo de 1998, no início do meu segundo ano
de mestrado, quando o governo japonês passou a permitir que professores
das universidades japonesas fundassem empresas. O meu professor foi o
precursor e fundou uma empresa com o objetivo de dar suporte financeiro aos
alunos firmando convênios com empresas, já que muitos estudantes não
ingressavam ao doutorado devido à situação financeira. Em outras palavras,
os funcionário-alunos passaram a ser remunerados a fim de pesquisar para as
empresas. Fui um dos primeiros a ser contratado, pois a lei japonesa da época permitia que o aluno estrangeiro trabalhasse até 4 horas ou mais por
dia, dependendo do período do ano. Assim, passei a ter essas duas
responsabilidades: uma com a escola e outra com a empresa. Como as pesquisas do
meu laboratório eram de longo prazo, qualquer problema significaria perda de
meses, e como a responsabilidade com a empresa não permitia atrasos, por mais
de três anos houve épocas em que dormia a média 4 horas por noite, isto 7 dias por
semana. Enfim, foram tempos de insônia. Vencidos os desafios, a satisfação
de ter concluído o curso e de poder desenvolver várias habilidades foi grande.
Porém, devo lembrar que o meu caso não é uma regra. Fiz tudo isso simplesmente porque
queria, concluindo o curso com artigos além do necessário.
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Morgan com seu professor orientador por ocasião da conclusão do Mestrado. |
Apesar dessa aparente falta de tempo, também tive a oportunidade de conhecer
várias regiões do Japão, de norte a sul, dos famosos campos de Hokkaido aos
belos mares de Okinawa, tendo sido parte em decorrência de apresentações de trabalhos
em congressos e outras, viagens com colegas. Além disso, apresentei
meu trabalho em vários países da Europa e da América.
Após a conclusão do doutorado, com os bons contatos e experiência consolidada,
fui empregado em uma empresa que me permite desenvolver novas tecnologias enfrentando
novos desafios, além de me permitir conhecer várias pessoas.
Estou muito grato às pessoas que me permitiram ter esta experiência, dos
professores e pesquisadores da Poli e ao pessoal do Consulado Geral do Japão
em São Paulo.
Morgan Hirosuke Miki
Bolsista de Pesquisa (pós-graduação) 1996
MATERIAL COMPLEMENTAR
Estudar fora vale a pena, mas implica riscos
[Fonte:Folha de São Paulo, Caderno de Empregos 14/11/2004]
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